Rev. Fac. Agron. (Maracay) 18:39-46. 1992.


Poda da raiz na produçâo de mudas de Anacardium occidentale L. através da alporquia

F.A.G. Almeida1; F.C.G. Almeida1; J.J.L. de Albuquerque1; M.A. Rabelo Filho1
1 Universidad Federal do Ceará, UFC. Campus do Pici, Caixa Postal 12168. 60 000 Fortaleza-Ceará, Brasil.

Trabajo aceptado para su publicación en diciembre, 1991


ABSTRACT

An experiment was set up in July, 1990, to determine the effect of airlayering adventitious roots of dwarf cashew trees on the production of uniform seedlings, identical to the mother plant. The work was carried out in Sâo Luiz do Curu, Ceará. Air layering was studied, with and without pruning the terminal portion of the first adventitious root and with different times of separation from the mother plant after their appearance: 1) layers taken at the time of appearance of the roots outside the substrate 2) two weeks after the above and 3) four weeks after the above. Ten air layers were taken per treatment, placed in a greenhouse for four weeks with intermittent sprinkling for 20 seconds every 20 minutes. The layers were then transferred to a shaded site for six weeks. After detachment from the mother plant, the layers were planted in plastic bags. The proportion of seedlings ready for transplantation in the field was observed six weeks after removal from the greenhouse. The seedlings with roots pruned at zero, two and four weeks showed 30, 20 and 10% of the total ready to be planted in the field, respectively, with no significant difference between treatments. In the unpruned group, 60% of the seedling separated at four weeks were ready for transplanting, a statistically higher proportion than that (20%) obtained from the ones which were separated immediately.

Key words: Anacardium occidentale, dwarf cashew tree, air-layering, root pruning, vegetative propagation.

RESUMO

Com o objetivo de aumentar a percentagem de sucesso na produçâo de alporques que possa garantir a identidade da planta mâe e a uniformidade dos plantios, foi implantado em julho de 1990, en Sâo Luiz do Curu, Ceará, um experimento com alporquia para verificar a influência da parte terminal das raízes adventícias de primeira ordem na produçâo de alporques de cajueiro anâo precoce. Foram estudados alporques, com e sem poda da porçâo terminal da raiz adventícia de primeira ordem e o tempo de sua separaçâo da planta mâe após a detecçâo destas raízes, a saber: (1) alporques destacados da planta-mâe no momento em que a raiz era vista na parte exterior do substrato, (2) alporques destacados com duas semanas após o aparecimento da raiz fora do substrato e (3) alporques destacados com quatro semanas após o aparecimento da raiz fora do substrato. Foram utilizados dez alporques para cada tratamento, os quais foram colocados em uma casa de vegetaçâo por quatro semanas sob condiçoes de nebulizaçâo intermitente a cada 15 minutos por 20 segundos. Decorridas quatro semanas na casa de vegetaçâo, os alporques foram transferidos para um ripado onde permaneceram por seis semanas. Quando separados da planta-mâe, os alporques foram plantados em sacos plásticos. Passadas as seis semanas no ripado, observou-se a percentagem de plantas aptas para o plantio. As mudas com poda terminal da raiz adventícia de primeira ordem apresentaram para zero, duas e quatro semanas, um percentual de 30, 20 e 10% de aptidâo para o plantio no campo, respectivamente, com nenhuma delas apresentando diferençâ estatística entre si. As que nâo foram submetidas a poda tiveram um percentual de plantas aptas mais elevado, tendo atingido 60% para os alporques com quatro semanas, 50% para duas semanas, nâo diferindo estatisticamente entre sí, e, apenas, 20% para os alporques destacados de imediato, que diferiu estatisticamente dos outros dois tratamentos.

Palavras chave: Anacardium occidentale, cajueiro anâo, alporquia, poda da raiz, propagación vegetativa.

INTRODUÇÂO

Dentre os métodos de propagaçâo vegetativa, a alporquia vem se destacando como de grande importância para a cultura do cajueiro face a várias vantagens que apresenta em relaçâo às plantas oriundas da própria semente ou progênies e, até mesmo, sobre aquelas obtidas através do método da enxertia, hoje em difusâo pelo Centro Nacional de Pesquisa do Caju-CNPCa/EMBRAPA (Parente, 1991). A alporquia constitui um processo de multiplicaçâo rápida que exige menos mâo-de-obra e habilidade do operador, além de reproduzir, integralmente, as características da planta-mâe. Os autores têm demonstrado através do acompanhamento de alguns indivíduos no campo e com mais de quatro anos de idade em condiçoes de irrigaçâo localizada, (F.A.G. Almeida, informaçoes pessoais.) que o crescimento de alporques é extremamente rápido, atingindo valores expressivos logo com doze meses de idade, conforme pesquisa realizada na área experimental da Usina de Piloto de Alcool da Universidade Federal do Ceará, em Caucaia, Ceará, contrastando com Phadnis et al., (1974) e Nambiar (1974). Os autores pesquisando, ainda, a ecologia da produtividade de uma mistura de novos clones desenvolvidos por eles comparada ao clone 076, desenvolvido pela Empresa de Pesquisa Agropecuária do Ceará- EPACE, também, em condiçoes de irrigaçâo localizada, registrou aos 12 meses de idade alturas e envergaduras médias para os mesmos de 1.55 m e 2.20 m e 1.30 m e 2.15 m, respectivamente, além de obter productividades médias de castanhas de 62.2 kg ha-1 e 45.3 kg ha-1, respectivamente.

Outro aspecto muito importante, é o sucesso do enraizamento deste processo sem nenhum uso de substâncias promotoras do crescimento em contraste com o que afirmam Rao e Hassan (1957), Chhonkar e Singh (1967), Acharryya e Dash (1972) e Sen e Chakravasthi (1972), chegando até 100%, dependendo, principalmente, da época de sua realizaçâo (Almeida et al., 1990a), além, de se obter este maior sucesso na época que se avizinha o período chuvoso.

O único problema que os autores vem enfrentando é com a morte no campo, logo após âo transplantio, de aproximadamente 50% dos alporques (mesmo com irrigaçâo). Isto tem conduzido âos referidos autores procurar estudar técnicas que possam aumentar, ainda mais, a percentagem de pega dos alporques quando levados para o lugar definitivo. Outro trabalho realizado depois deste mostra resultados de 100% de pega no campo.

O presente estudo teve como objetivo verificar a influência da parte terminal das raízes adventícias de primeira ordem na produçâo de alporques de cajueiro anâo precoce e o tempo de sua separaçâo da planta-mâe após a detecçâo destas raízes fora do substrato usado para a sua realizaçâo, em condiçoes de transiçâo litoral/sertâo, no sentido de aumentar a percentagem de plantas aptas para o campo.

MATERIAL E MÉTODOS

Este experimento, fazendo parte de uma série de estudos com alporquia de cajueiro anâo precoce, teve sua implantaçâo, em julho de 1990, na Fazenda Estreito, no município de Sâo Luis do Curu, a 83 km de Fortaleza, Ceará. A Fazenda localiza-se numa regiâo onde a precipitaçâo média anual varia de 800 a 1100 mm com ocorrência que pode acontecer de janeiro a junho, onde a estaçâo seca é sempre superior a 184 dias, quando a temperatura gira em torno de 26-27°C. Os alporques para este experimento foram confeccionados em progênies de cajueiro anâo precoce, com 2 a 3 anos de idade, sob condiçoes de irrigaçâo localizada através do método de microaspersâo. Os mesmos foram realizados de acordo com Almeida et al., (1990a, 1990b) e Almeida et al. (1991a, 1991b). O invólucro usado foi saco plástico transparente com capacidade para um quilograma e com espessura de 0.1 mm. O substrato foi pó de madeira umedecido 24 horas antes do enchimento e o amarrilho era de nylon, tipo convencionalmente utilizado para pacotes comerciais. O volume do substrato colocado em cada invólucro foi de aproximadamente 250 ml e foi dispensado em cuidado todo especial para expulsar todo excesso de ar deste substrato quando da amarraçâo do invólucro. Os ramos selecionados foram sempre de sublenhosos a lenhosos, com espessura, aproximada, a de um dedo médio de um homem normal. Há, aproximadamente, 30 cm do ápice dos ramos, foram realizados anelamentos com dois centímetros de comprimento, colocando-os no meio do "bolo" do substrato por ocasiâo da feitura final do alporque.

Seis tratamentos, com e sem poda da porçâo terminal da raiz adventícia de primeira ordem (raiz que é formada diretamente no ramo) e três tempos de separaçâo da planta mâe após a emissâo desta raiz, foram utilizados, com dez alporques por tratamento dentro da faixa recomendada por Pimentel Gomes (1985), e, colocados em uma casa de vegetaçâo por quatro semanas, sob condiçoes de nebulizaçâo intermitente a cada 15 minutos por 20 segundos. Os tempos de separaçâo dos alporques estudados foram (1) alporques destacados da planta-mâe no momento em que a raiz era vista na parte exterior do substrato, (2) alporques destacados com duas semanas após o aparecimento da raiz fora do substrato e (3) alporques destacados com quatro semanas após o aparecimento da raiz fora do substrato. Decorridas quatro semanas na casa de vegetaçâo, os alporques foram transferidos para um ripado onde permaneceram por seis semanas mantidos irrigados, manualmente, uma vez por dia. Quando separados da planta-mâe, os alporques, com apenas três folhas, foram plantados em sacos plásticos pretos de 20x15 cm, tendo como substrato duas partes de areia fina, uma parte de areia grossa e uma parte de esterco de gado bovino. Passadas as seis semanas no ripado, determinou-se as percentagens de plantas aptas para o plantio definitivo, as quais foram submetidas a análise de variância.

RESULTADOS E DISCUSÔES

Os resultados desta pesquisa estâo mostrados na Tabela 1. Coincidentemente, os alporques que foram destacados da planta-mâe após duas e quatro semanas da detecçâo das raízes adventícias de primeira ordem fora do substrato, apresentaram bons índices de sobrevivência (70%), tanto para aqueles que tiveram a parte terminal dessas raízes podadas como para aqueles que nâo sofreram poda. Vale salientar, que os alporques que foram destacados imediatamente após a visualizaçâo dessas raízes apresentarma, também, índices satisfatórios de sobrevivência. Por outro lado, as mudas com poda terminal da raiz adventícia de primeira ordem apresentaram para zero, duas e quatro semanas, um percentual de 30, 20 e 10% de aptidâo para o plantio no campo, respectivamente, com nenhuma delas apresentando diferençâ estatística entre si. As que nâo foram submetidas a poda tiveram um percentual de plantas aptas mais elevado, tendo atingido a 60% para os alporques com quatro semanas, 50% para duas semanas, nâo diferindo estatisticamente entre si, e, apenas, 20% para os alporques destacados de imediato, que diferiu estatisticamente dos outros dois tratamentos.

Tabela 1. Influência da parte terminal de raiz adventícia de primeira ordem na produçâo de alporques de cajueiro anâo precoce (Anacardium occidentale L.) e do tempo de sua separaçâo da planta-mâe após a detecçâo destas raízes, em Sâo Luiz do Curu, Ceará.

Tempo de Separaçâo

ALPORQUES

(Semanas)

COM PODA*

SEM PODA*

-

Vivos (%)

Aptos para o campo (%)

Vivos (%)

Aptos para o campo

0

60

30a

30

20b

2

70

20a

70

50ab

4

70

10a

70

60a

* 1. Médias seguidas pela mesma letra nâo diferem estatisticamente pelo teste Tukey âo nível de 5%.
  2. Plantas com 2 ou mais novas folhas coriáceas foram consideradas aptas para o campo.

CONCLUSÔES

  1. A produçâo de mudas de cajueiro anâo através do método de alporquia nâo deve utilizar a técnica de podas da parte terminal da raiz adventícia de primeira ordem como uma maneira de aumentar a percentagem de mudas aptas para o plantio definitivo.
  2. Com relaçâo âo tempo de separaçâo do alporque da planta-mâe, a melhor época de fazê-lo é de duas a quatro semanas após a emissâo das raízes adventícias de primeira ordem.
  3. Estes resultados poderâo ser diferentes se testados em outras épocas e/ou locais distintos.

LITERATURA CITADA

  1. Acharrayya, N. e P.C. Dash. 1972. Effect of two plant growth substances on cashew air-layers (Anacardium occidentale L.) Current Science 41 (14): 334-5.
  2. Almeida, F.A.G.; F.C.G. Almeida, C.A.M. Soares e M.A. Rabelo Filho 1990a. Substrato ideal para a produçâo de alporques de cajueiro anâo precoce (Anacardium occidentale L.) XIV Reuniâo Nordestina de Botânica. Soc. Bot. do Brasil. Recife, Pernambuco, Brasil. Res. p. 128.
  3. Almeida, F.A.G., F.C.G. Almeida; M.A. Rabelo Filho e C.A.M. Soares. 1990b. Enraizamento de alporques de progênies de cajueiro anâo precoce (Anacardium occidentale L.) sob condiçoes de irrigaçâo localizada. XIV Reuniâo Nordestina de Botânica. Soc. Bot. do Brasil. Recife, Pernambuco, Brasil. Res. p. 130.
  4. Almeida, F.A.G.; F.C.G. Almeida; J.J.L. Albuquerque de e M.A. Rabelo Filho. 1991a. Influência do tempo de envelopamento por aluminizaçâo na produçâo de alporques de cajueiro anâo precoce (Anacardium occidentale L.). III Congresso Brasileiro de Fisiologia Vegetal. Sociedade Brasileira de Fisiologia Vegetal. Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Resumo pp. 97.
  5. Almeida, F.A.G., F.C.G. Almeida; J.J.L. Albuquerque de e M.A. Rabelo Filho. 1991b. Necessidade de permanência em casa de vegetaçâo de mudas de cajueiro anâo precoce (Anacardium occidentale L.) obtidas através do processo de alporquia. III Congresso Brasileiro de Fisiologia Vegetal. Sociedade Brasileira de Fisiologia Vegetal. Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Resumo pag. 97.
  6. Chhonkar, U.S. e E. Singh. 1967. Effects of plant regulators on air-layering in cashew-nut (Anacardium occidentale L.) Indian J. Hort. 24: 26-9.
  7. Nambiar, M.C. 1974. Recent trends in cashew research. Indian Cashew Journal 9(9): 20-2.
  8. Parente, J.I.G. 1991. Recomendaçoes técnicas para o cultivo do cajueiro anâo precoce. Fortaleza, EMBRAPA/CNPCa, (EMBRAPA/CNPCa, Comunicado Técnico 01. 4 p.
  9. Phadnis, N.A.; K.G. Choudhury e D.G. Bandekar. 1974. Studies in the raising of cashew (Anacardium occidentale L.) clonal material in situ. Indian Cashew Journal 8(2):7-13.
  10. Pimentel Gomes. F. 1985. Curso de Estatística Experimental. 11ª Ed., Sâo Paulo, Livraria Nobel S.A. 466 p.
  11. Rao, V.N.M. e M.V. Hassan. 1957. Studies on the vegetative propagation of cashew (Anacardium occidentale L.): further studies on air-layering. Indian J. Agric. Sc. 27(4): 453-65.
  12. Sen, S.K. e S.P. Chakkavarthi. 1972. Effect of growth regulator on air-layering in cashew. Bangalore, ed. (Presented at the Third International Symposium on Subtropical Horticulture).