Rev. Fac. Agron. (Maracay) 27:77-86. 2001.
Acão
de lectina de sementes de Canavalia brasiliensis Mart. sobre o
comportamento da saúva do nordeste (Atta opaciceps Borgmeier, 1939
)
ABSTRACT
The
assay was developed in the Agricultural Entomology Laboratory of the Federal
University of Ceará, Brazil during 1996. It was determined that the behavior
of the workers of the northeastern leafcutting ant (Atta opaciceps
Borgmeier, 1939) (Hymenoptera:Formicidae) is affected by a lectin,
found in the sub tribe Diocleinae, Canavalia brasiliensis
(Con Br). The insect behavior adjusts to a dose/response pattern of
a hyperbole curve. The best responses were observed in the range of 0.02 to
2.00 mg of Con Br dissolved in a 0.15M solution of sodium chloride. It was
observed that higher doses have, as discussed in the text, an adverse effect
over the colonies under investigation. On the other hand, lower concentrations
of Con Br have a probiotic effect on the ant colonies.
Key
words: Atta
opaciceps, Canavalia brasiliensis, behavior, leafcutting ant,
lectin, Leguminosae
RESUMO
Esta
investigação foi desenvolvida nos atinários do Laboratório de Entomologia
Agrícola da Universidade Federal do Ceará. Ela encerra informações sobre a
ação da lectina da sub-tribo Diocleinae, Canavalia brasiliensis (Con
Br), no comportamento de operárias da saúva do nordeste (Atta opaciceps Borgmeier,
1939) (Hymenoptera:Formicidae). Utilizou-se nos bioensaios papel de filtro
tratado com a lectina, sob teste, como fonte de estímulo ao mirmicíneo. As
operárias foram afetadas, em seu com-portamento, pela lectina vegetal. O fenômeno
manifestou-se num padrão dose/resposta o que evidencia a utilização desta
proteína como agente de controle comportamental e/ou probiótico para colônias
de saúva do nordeste.
Palavras chave: Atta opaciceps, Canavalia brasiliensis, comportamento, lectinas vegetais, saúva do nordeste
INTRODUÇÃO
Há
trinta milhões de anos as saúvas, Atta spp. Utilizam os
ecossis-temas brasileiros e o fazem como espécie biológica bem
sucedida. A persistência do gênero ao longo do período geológico culminou
com sua perfeita adaptação aos biomas em que estas estão inseridas e
dispersas no continente americano. Saliente-se ainda, que este mirmicíneo vem
se moldando e superando as adversidades impostas pela evolução natural e por
processos microevolutivos estimulados pelos colonizadores a partir de 1500, data
do descobrimento do Brasil (Sales, 1990).
Nos
ecossistemas brasileiros a saúva destaca-se como inseto abundante, não só
pela densidade de sauveiros nas áreas infestadas, como também, pelo elevado número
de espécimes por sauveiro (Conceição, 1934; Mariconi, 1970; Sales, 1979;
1991a).
A
manutenção do equilíbrio ecológico e a preservação dos solos aráveis são
algumas das funções que este inseto desempenha com grande eficiência.
Continuam temidas como destruidoras de cultivos vulneráveis - soja, feijão-de
- corda, sorgo, milho, arroz, algodão e outras - isto, de um certo modo reforça
o preconceito do homem do campo contra as mesmas (Freire, 1994).
Em
virtude da eficiência das saúvas em cortar cerca de oito toneladas de folhas
por ano e fracassados os esforços, destinados à erradicação deste inseto -
através do uso de agroquímicos que resulta, principalmente, em desequilíbrio
ecológico e destruição da homeostasia nos ecossistemas - a investigação
científica, mercê da atuação do Grupo de Domesticação da Saúva da
Universidade Federal do Ceará, alterou o enfoque da investigação científica
voltada à destruição deste atíneo e concentrou esforços nos procedimentos
de controle comportamental e subseqüente domesticação (Sales, 1991b).
No
reino vegetal são encontradas diversas fontes ricas em compostos secundários.
Muitos destes, com função de proteger as plantas contra insetos, vírus, bactérias,
fungos e nematóides (Gatehouse et al., 1990). Entre estes compostos estão
as lectinas.
Lectinas
são proteínas ou glicoproteínas amplamente distribuídas na natureza,
combinam-se, especificamente, com receptores da superfície celular, ligando-se
às células e chegando, eventualmente, a provocar a aglutinação das mesmas.
As proteínas classificadas como lectinas possuem como propriedade comum a
habilidade de reconhecer e se ligar rever-sivelmente e com alta especificidade a
resíduos de carboidratos, sem contudo alterar a estrutura química dos ligantes
(Cavada, 1980; Grangeiro, 1996). Ao interagirem com glicoconjugados da superfície
celular, as lectinas podem promover a formação de ligações cruzadas entre células
adjacentes, causando a aglutinação das mesmas (Kocourek e Horejsi, 1983;
Peumans e Van Damme, 1995). A interação das lectinas com receptores glicídicos
da membrana celular é a base molecular para as várias respostas que essas
proteínas são capazes de induzir nos mais diversos sistemas biológicos.
Dentre tais propriedades biológicas, a atividade inseticida é de grande
interesse para a agricultura, com uma grande possibilidade de se obter
resultados dos efeitos deletérios e/ou probióticos in vivo.
A literatura pertinente registra como exemplos de efeitos biológicos,
estimulados pelas lectinas, a aglutinação de eritrócitos, a estimulação
mitogênica de linfócitos, a inibição do crescimento de células de tumores,
a indução da liberação da histamina por basófilos e mastócitos, a inibição
do crescimento de fungos e a toxicidade sobre células e organismos, tais como
animais e insetos (Isidro, 1996). O efeito deletério de várias lectinas
vegetais, purificadas de plantas pertencentes a diferentes famílias botânicas
tem sido investigado, principalmente sobre insetos pertencentes às ordens
Coleoptera, Homoptera e Lepidoptera. A avaliação dos efeitos de lectinas tem
sido realizada principalmente mediante a incorporação das proteínas
purificadas em dietas artificiais específicas para cada espécie (ensaios tópicos,
sementes artificiais).
O
objetivo deste trabalho é investigar a ação da lectina de sementes de Canavalia
brasiliensis (Con Br) sobre o comportamento da saúva do nordeste (Atta
opaciceps Borgmeier, 1939) (Hymenoptera:Formicidae).
MATERIAL
E MÉTODOS
Utilizou-se
colônias de saúva do nordeste, A. opaciceps dos atinários do Laboratório
de Entomologia Agrícola e do NUCLEF - Núcleo de Experimentação Fitossanitária
- do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal do Ceará, Campus
Universitário do Pici, em Fortaleza, Ceará, Brasil, de janeiro a dezembro de
1996. A lectina, objeto dos experimentos, foi isolada de sementes de C.
brasiliensis (Con Br) leguminosa (Tribo Phaseoleae, Sub-tribo Diocleinae)
seguindo a metodologia descrita por (Cavada, 1980). Pelo fato desta
lectina ter se destacado como uma lectina de propriedades peculiares, a despeito
da grande homologia que apresenta com a Con A (Grangeiro, 1996) e bem estudada e
caracterizada (Cavada, 1980), foi avaliada em bioensaios com a saúva do
nordeste, A. opaciceps. O princípio ativo foi cedido pelo BIOMOL-LAB -
Laboratório de Moléculas Biologicamente Ativas do Departamento de Bioquímica
e Biologia Molecular da universidade supramencionada.
As
unidades experimentais, previamente submetidas a um período de “jejum” -
supressão de oferta de substrato vegetal às colônias - de 24 horas isto é,
operárias que, recrutadas ou não, chegavam à plataforma de provisão e
passavam a explorar um disco de papel de filtro contendo as doses das lectinas,
sob teste. A plataforma, consistia de uma lâmina de vidro de 37.5x51.5x0.4 cm
asséptica e esterilizada. Assim, as unidades experimentais eram submetidas a três
tratamentos com três repetições: Um teste em branco realizado com papel de
filtro (ø
= 12.5 cm) sem tratamento; o segundo, papel de filtro tratado com uma solução
salina 0.15M de cloreto de sódio; e o terceiro, a dose de lectina diluída em
solução 0.15M de cloreto de sódio. A seleção das faixas de doses seguiu a
metodologia clássica para os ensaios de dose/resposta e elas consistiram dos
seguintes valores: 0.02; 0.06; 1.00; 1.50; 2.00 e 2.50 miligramas de princípio
ativo/mililitro de solução. Uma tabela de números randômicos foi aplicada na
casualização dos tratamentos (Steel e Torrie, 1960). A temperatura no ambiente
experimental foi mantida a 25.82 ± 1°C e 65.67 ± 5% de umidade relativa.
As
reações das operárias de saúva do nordeste aos estímulos foram anotadas em
função do tempo, dose e tipo de resposta. Os padrões de comportamento
selecionados para a investigação são característicos do etograma da saúva
do nordeste (A. opaciceps). Na avaliação compor-tamental, oito tipos de
respostas, discriminadas a seguir, integraram o elenco de observações, a)
acesso à área de provisão; b) acesso ao papel de filtro; c) marcação de
território na área de provisão; d) ibidem no papel de filtro; e)
exploração do local de tratamento; f) ibidem e recruta mento; g) início
do corte; h) transporte do material cortado, num lapso de
24 horas. As respostas foram cronometradas às 15:10 h; 15:20 h; 15:30 h;
15:40 h; 15:50 h; 16:00 h; 16:10 h, correspondentes a primeira hora de observação
dos bioensaios.
Os
dados foram transferidos para um microcomputador para serem testadas as hipóteses
de nulidade e auxiliar nas inferências.
RESULTADOS
E DISCUSSÃO
Ação
da lectina de C. brasiliensis (Con
Br) sobre o comportamento da saúva do nordeste.
De
acordo com os tipos de comportamentos observados foram avaliadas as ações dos
tratamentos medidos pêlos tipos de comportamentos mais expressivos ou mais
representativos como: acesso à área de provisão, marcação de território na
área de provisão e exploração do local do tra-tamento.
Na
Figura 1, comprova-se a ação das doses 0.02; 0.06; 1.00; 1.50; 2.00 e 2.50
mg/ml de lectina de Con Br sobre o comportamento exploração do local de
tratamento pelas operárias de saúva do nordeste, com os tratamentos papel de
filtro (PF), papel de filtro com a solução salina (PFS) e papel de filtro com
a lectina (PFL) e os totais da primeira hora de observação, reforçando a
variabilidade de comportamento em relação aos tratamentos. No entanto, fica
evidenciado que este comportamento é influenciado pelo tratamento que continha
a lectina, uma vez que a medida que aumentou-se as dosagens, obteve-se uma
resposta máxima de sua ação na dose de 1 mg/ml, isto é, um efeito probiótico
ou estimulatório das operárias em explorar o tratamento.
Por
outro lado, fica também evidente que este tipo de comportamento foi afetado
pela diminuição ou aumento da quantidade de proteína da melhor resposta
observada, causando um efeito adverso na realização deste comportamento. Foi
verificado ainda que na dosagem de 2 mg/ml o tratamento que continha a solução salina, mostrou-se
significativamente superior aos demais, isto é explicado pela variabilidade ou
o acaso em que operárias de saúva realizam este comportamento em relação ao
tratamento com a lectina e não pelo princípio ativo que o continha.

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Figura
1. Ação das doses
(0.02; 0.06; 1.00; 1.50; 2.00 e 2.50 mg/ml) de lectina de Canavalia
brasiliensis (Con Br) sobre o
comportamento exploração do local do tratamento da saúva do nordeste (Atta
opaciceps Borgmeier, 1939) (Hymenoptera:Formicidae) com os tratamentos papel
de filtro (PF), papel de filtro com a solução salina (PFS) e papel de filtro
com a lectina (PFL) e os totais da primeira hora de observação, Fortaleza,
Ceará, Brasil 1996
Na
Figura 2, constata-se a influência das doses de 0.02; 0.06; 1.00; 1.50; 2.00 e
2.50 mg/ml de lectina de Con Br sobre o comportamento, i.e., acesso à área
de provisão pelas operárias de saúva do nordeste, marcação de território
na área de provisão e exploração do local de tratamento. Destaca-se, uma
grande variação de respostas às doses testadas, na primeira hora, dentro de
cada comportamento. Ademais, a Con Br propiciou um padrão dose/resposta. Isto
evidencia a utilização desta lectina como agente de controle comportamental em
doses maiores e como agente estimulatório de recrutamento em doses menores para
as colônias do mirmícineo, objeto de domesticação.
Na Figura 3, constata-se a ação das doses 0.02; 0.06; 1.00; 1.50; 2.00 e 2.50 mg/ml de lectina de Con Br, também avaliando o comportamento exploração do local de tratamento pelas operárias de saúva do nordeste, e os totais da primeira hora de observação dos bioensaios. Neste caso a lectina Con Br foi a responsável pela manifestação de um padrão dose/resposta, acompanhando uma tendência de curva hiperbólica para cada dose estudada e reforçando a variabilidade do comportamento em relação ao tratamento.

Figura 2. Ação das doses (0.02; 0.06; 1.00; 1.50; 2.00 e 2.50 mg/ml) de lectina de Canavalia brasiliensis (Con Br) sobre o comporta- mento acesso à área de provisão (A), marcação de território na área de provisão (B) e exploração do local do tratamento (C) da saúva do nordeste (Atta opaciceps, Borgmeier, 1939) (Hymenoptera:Formicidae) com os totais da primeira hora de observação, Fortaleza, Ceará, Brasil, 1996

Figura 3. Curvas padrões das doses 0.02; 0.06; 1.00; 1.50; 2.00
e 2.50 mg/ml de lectina de Con Br sobre o comportamento exploração do local de
tratamento pelas operárias de saúva do nordeste (Atta opaciceps
Borgmeier, 1939) (Hymenoptera:Formicidae) dentro dos horários observados,
Fortaleza, Ceará, Brasil, 1996
CONCLUSÕES
A
saúva do nordeste, A. opaciceps foi
afetada, em seu comportamento, pela lectina vegetal utilizada na investigação.
Esta é a primeira constatação científica deste tipo de interferência.
Ademais, neste caso com a utilização
da Con Br o fenômeno manifestou-se num padrão dose/resposta o que evidencia a
utilização desta proteína como agente de controle comportamental e/ou probiótico
para colônias do mirmicíneo objeto de domesticação. Os resultados permitem
ainda, concluir que:
-
A lectina de Con
Br influenciou os tipos de comportamentos, através das diferentes doses e horários
estudados nos bioensaios
-
A primeira hora,
é a mais importante para comprovar a ação da lectina sobre as saúvas
-
As concentrações
que evidenciaram um melhor padrão dose/resposta da lectina utilizada foram 0.02
e 2.00 mg/ml, para o comportamento acesso à área de provisão e marcação de
território na área de provisão. Foi verificado, também, que dosagens maiores
causam efeito adverso ao comportamento da saúva e que dosagens menores induzem
probiose nas colônias do mirmicíneo
-
Foi verificado
que no comportamento exploração do local de tratamento, a dose intermediária
de 1.00 mg/ml causa efeito estimulatório ao comportamento da saúva e dosagens
extremas induzem a utilização desta lectina como agente de controle
comportamental
- Os diferentes horários apresentaram uma tendência de curva hiperbólica sobre os tipos de comportamentos estudados, indicando uma proposição de maior concentração das operárias nas primeiras observações e conseqüente decréscimo no final.
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